Este final-de-semana foi um período de bastante reflexão, tanto para mim como para a minha esposa e alguns amigos. Sábado almoçamos na casa de uns amigos brasileiros, que também convidaram um casal de amigos mexicanos, gente muito distinta. A conversa girou em torno das idiossincrasias dos dos países, México e Brasil.
Um dos temas principais foi a impunidade, ou a sensação de impunidade aqui no México. Falou-se do exemplo do Governador do Estado de Puebla, Mario Marín, que foi flagrado em gravações onde discutia pedofilia com um outro pedófilo, mas porque as gravações eram ilegais, o mesmo continua na sua cadeira de governador, e a jornalista que trouxe a público estas gravações faz pouco estava na cadeia por difamação. Discutíamos que possivelmente no Brasil um caso desses não teria o mesmo desfecho que no México. Por mais que o sujeito não fosse em cana porque as provas foram obtidas de forma ilegal, o próprio opróbrio faria com que todos o rejeitassem, inclusive o seu partido, e ou ele cairia no estracismo, ou pediriam o seu impeachment, ou o mesmo seria expulso do partido, neste caso o PRI (O Partido de la Revolución Institucional, seja lá o que isso signifique). Mas logo depois me lembrei do recém desvelado caso de José Roberto Arruda, atual Governador do DF, e seu partido o DEM, e neste momento em que escrevo, lembro-me de TODOS os mensaleiros, que hoje estão muito bem, como bem vaticinou Delúbio Soares, o mensalão não passaria de uma piada de salão (obviamente que dos salões onde esta súcia convive). Isso tudo me fez pensar que o Brasil talvez não seja tão diferente do México assim. É muito provável que a corrupção que aqui acontece no varejo, com cada policial em cada esquina, no Brasil aconteça no atacado, Delúbio e Cia que o digam, assim como os Aloprados do Dossiê contra Serra, José Roberto Arruda, e o mesmo Lulinha.
Hoje minha esposa me perguntava como poderia se dar o processo onde uma pessoa honesta se tornasse um corrupto, e se era possível que houvesse uma pessoa sequer honesta na política. Como em todas as minhas respostas, a primeira coisa que saiu da minha boca foi o famoso "depende". É que realmente depende de muitas coisas. Para começar depende do tamanho da eleição para a qual se concorreu. Não é a mesma coisa se candidatar à prefeitura de um município pequeno que a um município grande. Não é o mesmo se candidatar a Vereador, Deputado Estadual, Deputado Federal ou Seandor. Um voto para Senador no Ceará não custa o mesmo que um voto para Senador em São Paulo o Rio de Janeiro.
Para começar se eleger para qualquer coisa custa muito dinheiro, dinheiro que muitas vezes o político de boa fé não possui, e que mesmo eleito, não poderia pagar com o próprio salário. Por que eu tiraria do meu bolso para me eleger, por muito idealista que eu fosse? Por amor à pátria? Acontece que eu já pago os meus impostos e isso me parece mais que suficiente. Não tenho nenhum problema em compartilhar o meu intelecto e a minha energia em prol do meu país, do meu estado, do meu município ou do meu bairro, mas pagar por isso me parece despropositado. É aí que começa o problema. Se o sujeito não é rico o suficiente (talvez se eu fosse rico, quem sabe me candidatasse e me financiasse por pura filantropia, por que não?) para bancar sem sentir dor a própria candidatura, é óbvio que por muito honesto que seja, o dinheiro que ele investiu vai fazer falta mais tarde. É neste momento que chegamos a um ponto de inflexão: Se o sujeito é suficientemente honesto, ele logo atinará que em algum momento ele vai ter que ser desonesto e por isso nem se mete na política. Se ele for honesto, porém incauto, é possível que ele só se dê conta da roubada lá na frente, e aí novamente o ponto de inflexão: sou um "pouco desonesto" e pelo menos recupero o que eu investi (sem lucro, ;e claro!) e me viabilizo como político, ou assumo a perda financeira e caio fora porque essa não é a minha praia?
A outra opção é aceitar os famosos doadores de campanha. Por que uma empresa doaria a uma campanha de um político? Seria esse um genuíno ato de boa fé, sem nada em troca esperar? Eu sinceramente acho que não. É óbvio que há expectativas de natureza Latu sensu e outras de natureza Strictu sensu. Não é a mesma coisa uma empresa digamos fabricante de automóveis que me patrocine a campanha porque eu defendo a desoneração de impostos para todo o governo ou para uma determinada indústria, com um tom de impessoalidade que todo o mercado se beneficiaria, que outra que me patrocina porque amanhã eu lhe facilitarei um contrato para a construção de uma hidroelétrica, ou mudarei a lei para que ela possa se fundir com uma outra empresa que hoje em dia não é possível. Nesta discussão parece que a Impessoalidade é chave.
Depois também temos o atual sistema político e os seus partidos, que hoje possuem o monopólio eleitoral. No Brasil, assim como no México, não só apenas é possível se candidatar ao cargo que for através de um partido político, como os partidos necessariamente tem de ser nacionais. Não é difícil discernir que onde há monopólio (ou monopsônio), sempre há distorção. O atual sistema obriga o cidadão a se acercar a um partido se o mesmo cidadão quiser se postular a qualquer cargo político. Caso nenhum partido o agrade ele pode até fundar o seu próprio partido, mas é necessário possuir não sei quantos filiados por estado para que este partido tenha acesso ao pleito, seja ele nacional, estadual ou local. Se partimos do princípio que os atuais políticos são a escória da sociedade, verdadeiros párias morais sustentados com o dinheiro dos nossos impostos, associar-se a qualquer partido é se associar à súcia reinante.
Como podemos ver até o momento, não há muito para onde correr. Ou corrompe-se de cara, ou corrompe-se depois.
Mas digamos que exista um partido sério, necessariamente de abrangência nacional, e que um cidadão honesto e de reputação ilibada decida se candidatar por este partido. Então chegamos na hora do financiamento de campanha. Todos sabemos que na conjuntura atual não há dinheiro que alcance para pagar pelas campanhas políticas, com ou sem financiamento público. Digo isso porque mesmo com financiamento público, basta que o outro candidato aceite ou use o recurso dos "recursos não contabilizados" para que a disputa se torne desigual. O que fazer então? Jogar pelas mesmas regras do outro? E se um empresário gente boa nos oferece um dinheiro em espécie, tipo como o que ofereceu à turma do Arruda no DF, aceitamos? Todos sabemos que aquilo que não resiste à ausência de quatro paredes e à luz do sol, pelo menos na política, geralmente não é lícito. É óbvio que o dinheiro vem de algum caixa-dois, esta prática corriqueira, tanto na economia como na política do país. É válido sujar-se um pouco em nome de um bem maior? Porque por muito boa que seja a ideologia e o idealismo, se não chegamos às vias de fato da política, de posse de um cargo eletivo que possa minimamente influenciar a forma como se fazem leis ou se governa neste país, estaremos apenas pregando no deserto.
Eu não consigo chegar a outra conclusão senão a seguinte: Quem entra para a política ou é sujo, ou tornar-se-á. É triste, mas infelizmente é verdade. E aí me surge a pergunta? Se todos ou são ou serão, o que se faz de nós que votamos nessa gente? Também o somos? Somos seus cúmplices objetivos, apesar de não nos beneficiarmos?
Acho muito difícil mudar a política de uma hora para outra, mas há outros fatores que certamente diminuiriam as oportunidades de corrupção. Baratear as campanhas é uma delas. Aqui no México o TRE daqui inclusive possui formas de detectar financiamentos ilegais. Criaram uma espécie de tabela de custos standard de eventos. Um showmício vale tanto. Um spot na televisão vale tanto. Uma viagem para fora da cidade vale tanto em função da distância e do meio de transporte. Desta forma é indiferente se o candidato pagou pelo jatinho ou pelas passagens de avião, pois o simples fato de usá-los já entra na sua conta. Quem sabe isso ajudasse um pouco no Brasil.
A outra coisa que poderia coibir ou desestimular a corrupção é o tamanho do governo. Todo e qualquer governo é corrupto, e quanto maior o governo, maior a corrupção. É por isso que há países onde eleger um político pode ser mais ou menos "rentável" que noutros. Tudo depende do tamanho e da amplitude do exercício da influência, assim como a discricionariadade das decisões, a transparência e a existência de checks and balances. Um TCU formado por políticos nomeados pelo presidente certamente não é um órgão isento, só pra começar por cima.
Um executivo forte é um exemplo de uma porta aberta para a malversação de recursos. Convenhamos que é muito mais fácil se decidir mal quando a decisão depende apenas de um sujeito, que se todo um parlamento tenha que se colocar de acordo numa sacanagem, mas não que não exista, o Brasil é sempre um exemplo nisso, vide o escândalo das passagens na Câmara dos Deputados, ou há algum tempo os "anões do orçamento", ou mesmo recentemente o mensalão.
O fato é que quanto menor o governo, quanto menor for a sua influência na economia, menos corrupção. Se a Petrobrás fosse privada, o fato de um político querer isso ou aquilo não daria em nada, mas hoje, quando ele coloca um apaniguado no comando, é óbvio que ela vai financiar quadrilhas de São João nos municípios governados por Prefeitos do partido da situação, ou quem sabe geraá mais empregos no estado governado pelo partido da situação. Isso vale para a Petrobrás, mas também vale para a Infraero, para a duplicação de rodovias, para o asfaltamento de ruas, para a eletrificação, até para a reforma agrária.
E voltando ao mais recente caso de corrupção no Brasil, eu sinceramente espero que o DEM expulse José Roberto Arruda, mesmo significando uma baixa em termos políticos, já que era o seu único governador. Reputação é uma coisa que demora muito em se conseguir, mas que se perde facilmente.